sábado, outubro 28, 2006

O MEU MANIFESTO PARA O SEC. XXI






MANIFESTO SEC XXI

O verdadeiro artista (homem de acção) ainda existe? É um dos assuntos que focarei neste manifesto.
o que é certo é que a arte (teatral e outras) em Portugal estão envoltas de preconceitos e "casulos" e deixaram de cumprir as suas funções de crítica. E tornaram-se incapazes de qualquer interacção social, tão desajustadas se encontram da realidade em que vivemos, como deveria ser o seu dever e missão vital.
O artista deixou de acreditar no trabalho colectivo, e mais desgraçadamente ainda, deixou de acreditar em si próprio, concentrando as suas energias, não numa causa ou projecto, mas em algo que não é mais do que uma auto-hipnose que o leve à inconsciência perante a impotência que sente mas que não consciencializa, e que o torna não mais do que uma marioneta, manipulada por fios invisíveis que o narcotizam e impedem de seguir um caminho voluntário, com cabeça, tronco e membros, inconsciente dos seus actos e missões, obcecado apenas com a sua integridade individual, despojado de espírito de sacrifício e de vontade própria.
Incentiva-se com efeito, de uma forma fatalmente rotineira, a mediocridade!
Em relação aos resultados obtidos, são totalmente ausentes de qualquer critério de avaliação qualitativa, permitindo que o cabotinismo seja legitimado e premiado, com a cumplicidade de quem manda e de quem critica.
Esqueceu-se o mais importante: algo que é o cerne de todas as questões: o amor à arte e o sacrifício por ela, elemento indispensável à criação de um objecto artístico digno e válido, e que poderá perdurar no tempo e na memória, porque universal na sua consistência e estrutura.
Esqueceram-se de que mais do que produzir por obrigação, e em quantidade, mais vale produzir um bom ou único objecto ou projecto artístico, do que legitimar um sem número de eventos artísticos, para amigo, família ou inglês” ver.
Nesta época de mudanças e convulsões sociais tão constantes, e em que o entretenimento é já uma das artes mais lucrativas do século XXI, não se justifica que as artes em geral não se tenham ainda adaptado à realidade que as envolve, não lutando contra a anarquia de valores e regras de conduta, totalmente indignas e imorais que nos rodeiam e campeiam.
É necessário que o actor e o artista se munam de todas as suas armas, e se tornem os guerreiros e paladinos de uma causa maior que a deles próprios: a união pelo colectivo através do amor à arte e da abdicação de certos princípios individuais perante opiniões contrárias, que muitas vezes, além de correctas, nos completam e enriquecem como artistas e como homens.
O saber ouvir para saber agir, com a nossa personalidade enriquecida por convicções que nos suplantam é absolutamente vital!
Este homem que é o artista e o guerreiro, terá de ser versátil, aberto e o mais verdadeiro e coerente com a sua natureza possível, sabendo servir a causa que lhe é proposta e a que se propôs, devendo munir-se do maior dos brios e dignidades de que é capaz de possuir e obter, de forma a suplantar o talento de que dispõe, através do trabalho, disciplina e persistência, para através da humildade e da auto-crítica, poder chegar muito mais além do que o próprio pensaria no início.

Depois da obra feita, a tendência geral de olhar para trás e sentir o normal orgulho, terá que ser substituída no século em que vivemos, por um olhar mais humilde, sincero e auto-crítico, próximo da insatisfação, conscientes de que a obra agora nascida, carece ainda de consolidação e implantação, e que só regada diariamente, poderá vir a dar frutos ainda mais saborosos e sumarentos.

A obra nunca acaba e o labor tem de ser contínuo!
Em Portugal e no mundo, a cultura da estátua nunca esteve tão instituída como hoje, idolatrando-se o indivíduo e o artista, por razões que o próprio, tantas vezes desconhece, mas aceita, indigno e ignóbil …
Um acto artístico não é mais do que um mero fragmento, que se diluirá no tempo e no espaço, e isento do calor que permita marcar a ferro quente as almas que testemunharam esse visionamento único e irrepetível nunca poderá perdurar para os vindouros.
apelo, pois, àqueles a quem foram atribuídos os galões e as medalhas, que pensem no quanto é efémero e supérfluo a obra e a sua fama, o reconhecimento, a visibilidade e a idolatria, e que as substituam por uma atitude mais humilde e discreta, tanto no confronto com os seus, como consigo próprios e com a sociedade.
Para isto acontecer, há que recusar medalhas, há que saber recolher às boxes, e substituir o nosso amor-próprio e o nosso amor a nós mesmos, por uma medida mais exacta e justa.
Não devemos menosprezar-nos ao ponto de perdermos dignidade e amor-próprio, nem devemos inebriar-nos nem idolatrar-nos em exageros de afeição a nós mesmos que impedirão o processo criativo na sua forma unicamente válida, pura e realmente revolucionária.
O actor e o artista tem que ser um homem simples, trabalhador, pontual e incansável, ao ponto de sentir que é o atleta das suas emoções, dialogante e atento e capaz de reconhecer que os seus pontos fracos, não são os seus defeitos, mas, (na maior parte das vezes), mais do que qualidades adulteradas, por muitas e inexplicáveis razões que eles desconhecem e que os outros não querem revitalizar ou dar a volta a….
Por muito que nos custe reconhecer, a arte individual carecerá sempre de força, de impacto e de sapiência junto do seu interlocutor, e só através do trabalho colectivo, com tudo o que isso implica de abdicação, união, esforço, sacrifício, indignação ou revolta, nascerá um objecto recheado de elementos complexos, que a complementem e a enriqueçam.
Ver mau teatro é por exemplo verificar que o que é dito pelos actores não é dito directamente ao parceiro com que se contracena, porque ele não sentiu o que proferiu com a verdade necessária e aprende-se também com isso. É pois muito positivo e enriquecedor ver más obras de arte.
Considero que a arte não pode ser fabricada em série e terá que ser sempre encarada como uma obra única muitas vezes com edição limitada, infalsificável e irrepetível.
Nesse contexto, estar muitas vezes parado, é preferível, do que actuar em série, para sobreviver, assim como saber ouvir é tantas vezes mais importante do saber falar.

Temos hoje na arte uma hierarquia que impede que o filho possa suceder ao pai ou que o neto possa suceder ao avô, que senil, não se apercebe do ridículo papel que protagoniza, mas que do qual retira frutos que o tornam ainda mais egoísta do que a sua idade normalmente o caracteriza.

Desiducou-se o público, standartizou-se a sociedade e a globalização legitimou o nível mais baixo de que há memória na criação artística de qualquer género.
É altura de renovar a sociedade artística, desmascarando de forma cirúrgica, todos quantos estejam até agora impunes dos seus crimes legais e imorais, de uma forma implacável e escrupulosa.

Se uma qualquer valorização ou prémio cercar o artista, ele terá que saber recebê-la, não como um louro ou troféu, mas como um sinal de que mais uma porta se abriu na sua vida.
é altura de acordar os espíritos e as almas entorpecidas.
É hoje o momento de cortar cabeças e de dar atestados de incompetência e senilidade a todos os que se pavoneiam e exibem sem qualquer pudor, nos camarins da nossa pequena mas tão ignóbil sociedade.

Que formas de luta existem? Ironicamente digo:
Acordem! Porque o sonambulismo é a maior das ilusões, a seguir ao sonho, que ao menos nos faz viajar, enquanto que o sonambulismo hipnótico e imposto, nos limita e controla, não só o nosso corpo como a nossa alma, tão paralisada e inerte, que nem disso nos apercebemos, devido ao stress que nos faz locomover de um lado para o outro. Mas a ilusão consiste apenas no nosso corpo que se move, pois a nossa alma deixou de se mover e congelou, devido aos raios de um qualquer “raio”…
Nunca como hoje o "poder" foi tão mais forte do que o dinheiro, porque só ele permite todas as oportunidades e abre todas as portas.

Não é dependentes do acaso que poderemos construir uma obra estável e sistemática, com produções anuais de qualidade.

Com estes estratagemas a sociedade perde, a pouco e pouco, a sua capacidade de renovação e transformação e pressão social, coisa vital na arte, na cultura, na escrita, no teatro, na dança, no cinema, na pintura, no vídeo, etc.…
A arte morreu! O artista já não existe!

Ele é agora um clone de si próprio, impotente para mudar Portugal, quanto mais o mundo, perdido já para sempre.
Por aqui (Portugal), é incrível como ainda um fatinho e uma gravata fazem com que se seja doutor sem diploma, ou se seja beneficiado com a prioridade da passagem por uma qualquer porta em primeiro lugar…
A crise de valores é educacional, genética, congénita e o estado, dito democrático, legitima através de complicadas burocracias, um individuo amorfo, desconfiado, desinteressante e igual a todos os outros, unidos por modas, e não por gostos pessoais e intransmissíveis, agindo por imitação, como uma criança.
O convívio e a linguagem estão hoje assentes em padrões de moralidade tão baixos, que nunca o homem comunicou de forma tão primitiva, prevendo-se nos próximos anos uma linguagem gestual que substitua a palavra e até outras formas de relações, incluindo a sexual!
se pensarmos em quantos hoje têm tudo e pensam que não têm nada, e em quantos não se sabem contentar com o que têm, perceberíamos que é através da perscrutação da nossa alma que nos alimentamos e poderemos amar o mundo e os outros, sendo assim que nos formamos como homens e mulheres adultos e preparados para a vida deste novo século.
O sexo perdeu todo o seu lado reprodutivo e hoje não passa de um jogo recreativo, onde se introduz uma moeda e sai orgasmo.
Ele é hoje uma indústria, das mais lucrativas do mundo, e onde a arte da exposição deixou de ser feita com qualquer amor à arte ou com a arte como um fim em si mesmo.

Digo-vos pois, que só através da auto-crítica e da greve de consumo, poderemos um dia construir algo de substancial e com que rejubilemos de alegria e humor, exorcizando os nossos fantasmas e frustrações de seres humanos mortais, mas saudavelmente disso conscientes.
se assim pensarmos, o homem morre mas a obra fica e a semente por nós deixada, bem regada pelos vindouros, perdurará para sempre, nas gerações que se seguirão, ao serviço de algo tão nobre, como a dignificação do ser humano, com todas as suas diferenças.
o sexo em geral e a pornografia em particular tem sido, por vezes, o objecto de estudo de alguns dos meus espectáculos e é por sentir que a sua banalização se generalizou em todos os campos comunicacionais, que penso ser um dos mais importantes objectos de estudo da sociedade contemporânea.
O canibalismo sexual a que assistimos, tem que dar lugar ao acto reflectido e só através dessa reflexão, e do humor que lhe está subjacente, poderemos exorcizar todos os nossos fantasmas, e escancarar as nossas almas perante o mundo, não por termos disso necessidade, mas porque sentiremos nisso uma obrigação irreprimível.

Abri pois os vossos corações e amai-vos uns aos outros tanto quanto possível, pois é aí que reside a nossa salvação enquanto seres humanos.
Convém não esquecer que tal só será possível se por vós tiverdes suficiente amor-próprio.
Não esqueceis que cada um de nós tem dentro de si não dois ou mais "homens", mas uma tribo de seres indisciplinados, que temos de saber controlar diariamente, sob a pena de sermos controlados e dominados por alguém que nos quer permanentemente "de férias".
Pensai que sois sempre um doente, ou estais sempre prestes a sê-lo, e como tal, necessitais de uma atenção contínua, sob a pena de piorardes a vossa condição humana, e de poderdes dar à luz um aborto ou um ser diminuído.
Se pelo contrário não vos deixardes controlar por um qualquer membro dessa comunidade que vos habita, terias em vós as condições para possuir um ser higiénico e suficientemente ágil e sagaz, capaz de enfrentar as vicissitudes da vida da forma mais combativa possível e como ela realmente é: difícil!
Devemos então amar-nos primeiro, um pouco como a um amigo: a afeição que se tem a um amigo é formada principalmente por confiança, de conselhos dados e recebidos, de concordância um com o outro.
Eis aí a amizade! Deve ter-se amizade a si mesmo. Antes de mais nada deve-se estar em concordância consigo mesmo.
O homem encerra em si uma pequena companhia de comediantes para sua recreação pessoal. Nada terá que sofrer por causa deles se souber ser o seu director e não lhes permitir que se tornem actores trágicos, como é sempre a ambição dos comediantes.
Sem sombra de dúvida que nos educamos a nós mesmos em todas as idades, mas é necessário não nos transformarmos bruscamente a partir de uma certa idade. Estas conversões raras vezes vêem substituir um meio-mal por um bem e são o abandono de um amigo quase seguro por um amigo desconhecido.
O homem deve tratar-se como a um amigo que nos mereceu uma certa confiança, que pode enganar-nos, isto é, enganar-se, que é necessário vigiar, que é necessário ensinar, com o qual é necessário discutir delicadamente, contra o qual não devemos lutar com violência, que tem por vezes boas inspirações, que nos diverte, que nos aborrece, que nos imita, que nos acalma, mas que no fim de contas, nunca pode ser-nos indiferente, e que nisso, muito bom amigo, não nos proíbe de termos outro amigo.

Devemos depois, amar-nos como a um pai.
Uma alma nobre é uma alma que se respeita a si mesma.
O respeito que deveis ter por vós é análogo. Deveis respeitar em vós o que podeis ser, o que desejais ser e o que deveis ser.
Não avancemos demasiado em sentido nenhum... Experimentamos tanto orgulho quando nos sentimos profundamente humildes. É verdade. Devemos ter receio de levar a humildade até ao orgulho. Assim seja! Como filho de si mesmo, o homem sente-se indefinidamente obrigado a ser seu próprio pai.
Devemos notar que a mocidade pode informar alguma coisa acerca da meia-idade, a meia-idade acerca da idade madura, a idade madura acerca da velhice, e talvez a velhice acerca da morte. Mas é preciso notar que a infância não informa absolutamente nada acerca da "mocidade".
É por isso que na mocidade fazemos tanta tolice. A mocidade é verdadeiramente a idade em que se nasce. É por isso que nela, devemos, mais do que em qualquer outra idade, ser pais espirituais de nós mesmos. É sobretudo então que devemos dar-nos uma educação forte. É portanto na mocidade que se está na gestação de si mesmo, e por conseguinte, se deve observar, poupar, cercar de cuidados e displinar a gravidez, para não dar à luz um aborto ou um ser esclerosado.

Podemos ainda amar-nos um pouco como se ama um filho, apesar de que não convém pender demasiado para este lado.
Amamos um filho com ternura, com sensibilidade, com indulgência, com fraqueza e não devemos amar-nos assim senão muito parcimoniosamente. E contudo não devemos abster-nos inteiramente deste amor. É uma desgraça ser-se apenas um homem. Ou antes, é uma desgraça não se ser um homem completo e não é completo todo o homem em quem não subsiste alguma coisa da criança. A criança que temos em nós distrai-nos e todos sabem que necessitamos de distracções.

E enfim, com maior precaução ainda, o homem deve amar-se um pouco como a uma mulher que ele ame. O amor é talvez primeiro que tudo curiosidade, é depois ou ao mesmo tempo um desejo de possuir e de ser possuído. Deve ser primeiro que tudo e sempre uma dedicação. Aquilo que do amor pela mulher não deve entrar no "amor a si mesmo" é o desejo de possuir e de ser possuído.
Entendo que dedicação a si mesmo é pensar continuadamente em si, o que não impede de pensar nos outros. Dedicação a si mesmo é não se deixar, não se abandonar, não se tornar indiferente a si mesmo. Não esqueçais que sois sempre um doente ou estais sempre prestes a sê-lo, doente fisicamente, doente intelectualmente, doente moralmente. Um doente exige cuidados incessantes, uma solicitude inteligente e constante.
Ora aqui pode estar o conjunto dos vossos deveres para com vós mesmos: conservar o corpo saudável, o espírito leal e luminoso, a alma límpida e justa, e isso constitui uma verdadeira dedicação à vossa pessoa.
Considero hoje, que nesta sociedade contemporânea está ainda tanto, tanto por fazer, em relação a esta atitude e a tantas outras, e nesta hora de análise e exame da sociedade portuguesa que nos abafa e impõe tudo e todos, quero, aqui e agora, exigir a demissão de todos quanto tenham a sua consciência minimamente turva e saiam das suas cadeiras, deixando arrefecer os assentos para os vindouros que as mereçam!

Duarte Barrilaro Ruas
barrilaro@hotmail.com

HOMENAGEM PÓSTUMA A MEU PAI...


O meu Pai é o "rapaz" que está á nossa direita do meu Avô Henrique (de óculos e bigode)




Dr. Elísio Barrilaro Ruas
(No dia do seu final de Curso de Direito - Coimbra - 1954)